27 Dezembro 2008


22 Dezembro 2008

A terceira perna.

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir.

É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre? Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.

Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização? E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

No entanto na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que se achar? Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É? Também , também.

Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida. Sei que precisarei tomar cuidado para não usar superficialmente uma nova terceira perna que em mim renasce fácil como capim, e a essa perna protetora chamar de uma verdade Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E - e se a realidade é mesmo que nada existiu?! Quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? O resto não existiu. Quem sabe nada existiu! Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma dá construção à substância amorfa - a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribuí-los pelos dias e pelas fomes - então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada.
A vida humanizada. Eu havia humanizado demais a vida.

Mas como faço agora? Devo ficar com a visão toda, mesmo que isso signifique ter uma verdade incompreensível? ou dou uma forma ao nada, e este será o meu modo de integrar em mim a minha própria desintegração? Mas estou tão pouco preparada para entender. Antes, sempre que eu havia tentado, meus limites me davam uma sensação física de incômodo, em mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa. Cedo fui obrigada a reconhecer, sem lamentar, os esbarros de minha pouca inteligência, e eu desdizia caminho. Sabia que estava fadada a pensar pouco, raciocinar me restringia dentro de minha pele. Como, pois, inaugurar agora em mim o pensamento? E talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão.

Já que tenho de salvar o dia de amanhã, já que tenho que ter uma forma porque não sinto força de ficar desorganizada, já que fatalmente precisarei enquadrar a monstruosa carne infinita e cortá-la em pedaços assimiláveis pelo tamanho de minha boca e pelo tamanho da visão de meus olhos, já que fatalmente sucumbirei à necessidade de forma que vem de meu pavor de ficar delimitada - então que pelo menos eu tenha a coragem de deixar que essa forma se forme sozinha como uma crosta que por si mesma endurece, a nebulosa de fogo que se esfria em terra. E que eu tenha a grande coragem de resistir à tentação de inventar uma forma.

(trecho de "A paixão segundo G. H.", de Clarice Lispector)

15 Dezembro 2008

sem palavras.


18 Outubro 2008

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.

(Gabriel Garcia Marques. Memórias de Minhas Putas Tristes)

30 Setembro 2008

a trucker e a trendsetter

Tá certo que eu tinha quando ninguém tinha. Tá certo que eu usava quando ninguém usava. Principalmente aqui no Rio, onde predomina o look mulher das cavernas: cabelão e pedaço mínimo de pano amarrado e cobrindo o que a lei não permite exibir.

O inverno acabou e eu já planejando uma encostadinha no meu kaffieh, mas eu gosto tanto dele, mas tanto que sempre dou um jeito de incorporá-lo ao visu assim que o tempo dá uma fechadinha.

O problema, gente, o problema é que às vezes uma simples imagem basta para matar e enterrar de vez uma trend. Dá uma olhada nisso e me diga se estou errada:

e aê, gilberto, beleza?

Encerro por aqui a carreira dos meus lenços kaffieh.

08 Julho 2008

tá foda, público. foi mal.
vai melhorar. prometo.

enquanto isso, leiam a galera que linkei aqui no brog!

08 Junho 2008

Friendship never ends

por Rodrigo Abrahão em 2005.

ARTHUR: Tô te dizendo, Julia. Esse semestre vou levar a faculdade a sério. Tenho que me formar, né? Tô doido pra te encontrar, cara. Quanto tempo! É, desde que voltei pra Mariana. Mas o namoro não anda legal, não. Depois que o nosso filho nasceu, ela entrou numa de querer casar. Não rola, Julia. Eu amo a Mariana. Muito até. Mas agora não dá. E ela não entende isso. Não tem grana. Eu até acredito no amor e uma cabana, onde tudo se resolve no pau e na xoxota durante um tempo. Mas com filho no meio não tem como. O Chiquinho? tá bem. Claro que eu fico todo todo. Meu filho, né, porra. A cara do pai. Vou levar foto dele. Vamos montar nosso horário junto? Puxa matéria à noite. Eu te deixo em casa depois. É só você rachar a gasolina. Hein? Tá bom. A gente se vê lá, então. Julia, tu é meu amigão. Tapão!Cena 2: Sala de aula. Arthur e Julia conversam, enquanto copiam a matéria.

JULIA: Não vamos fazer amizade com ninguém esse semestre, hein?

ARTHUR: Por causa de Mariana?

JULIA: Não. É que eu descobri que pra conseguir o que se quer, nessa vida, é necessário ser antipático.

ARTHUR: Hã? Não entendi.

JULIA: Está nos filmes, seriados e novelas, Arthur. Os vilões são sempre os melhores. São legais, sarcásticos e sempre conseguem tudo.

ARTHUR: Mas eles sofrem no final.

JULIA: Melhor que o mocinho, que sofre a história inteira. E é o nosso caso.

ARTHUR: Eu não sou tão mocinho, Julia.

JULIA: Ah, é sim.

ARTHUR: Não sou!

JULIA: É!

ARTHUR: Não sou, porra! Quer saber mais do que eu?

JULIA: Claro que é, Arthur! É só olhar pra sua vida. Vinte e três anos, já devia estar formado, peraí, está no quinto período fazendo matéria de primeiro, trabalhando de operador de telemarketing, peraí deixa eu falar, ganhando uma miséria, com um filho de um ano nas costas, não me interrompe, noivo de uma mulher gorda e ciumenta. Você é ou não é um herói?

ARTHUR: Tem razão. Vou mudar.De hoje em diante pode me chamar de Leôncio.

JULIA: Ah, eu posso ser Branca Letícia de Barros Motta? Por favorzinho...Diego entra e senta na frente de Arthur e Julia. Eles olham com desdém.

JULIA: Essa professora de Cálculo é bacana.

ARTHUR: Evangélica, né?

JULIA: Ai, Arthur. Se eu não passar dessa vez, eu desisto da faculdade. Já é a quarta vez que a gente faz essa matéria.

ARTHUR: Rumo ao penta...Diego ri deles. Julia e Arthur percebem, mas desdenham.

JULIA: Tá rindo de que, ralé?

ARTHUR: Tu vai pro tronco, hein, Isaura gorda! Tu conhece a figura?

JULIA: De vista. É amigo do Daniel.

ARTHUR: Que Daniel? O Daniel (faz um sinal qualquer de deboche)?

JULIA: É... o cdf.

ARTHUR: Tinha que ser. Por isso que tá rindo.

JULIA: Tá rindo não sei de quê. Isso aqui é turma de repetente. Se está aqui é porque “tomou” também.

ARTHUR: Ai,ai. Se fudeu... será que dessa vez a gente passa?

JULIA: Arthur. Ou passa,ou passa. Não temos outra opção.

ARTHUR: No auge do desespero a gente,sei lá, toma um porre, grava uma fitinha vhs e manda pro primeiro reality show que abrir inscrição.

JULIA: Tô topando qualquer emissora. O celular de Arthur toca. Ele olha quem é e não atende.

JULIA: Ué, você não vai atender?

ARTHUR: Não.

JULIA: Quem era?

ARTHUR: A Ana Vitória.

JULIA: Desconheço.

ARTHUR: Conhece,sim. A Vivi, pô. Aquela minha amiga de cabelo vermelho, que fazia pedagogia aqui.

JULIA: Ah tá. E por que você não atendeu?

ARTHUR: Nada, não. Um trato aí que eu fiz com a Mariana.

JULIA: Que trato?

ARTHUR: Um troço super chato, Julia. Quando eu pedi pra Mariana voltar pra mim, ela exigiu que eu parasse de falar com a Vivi.

JULIA: E você aceitou?!

ARTHUR: Aceitei, né? Apaixonado...

JULIA: Homem é tudo palhaço mesmo. Que ridículo. Mas eu admiro a Mariana. Uma mulher que soube utilizar bem o que todas as outras têm de melhor.

ARTHUR: O amor?

JULIA: Não. A xoxota mesmo.

ARTHUR: Eu sei que eu errei. Eu gosto muito da Vivi. Mas eu tive que escolher. A Mariana é mãe do meu filho. Tem coisa que é difícil decidir. E eu estava numa sinuca de bico. O que você faria no meu lugar?

JULIA: Eu? Com certeza jamais trocaria uma amizade por uma pixirica. Um pinto, no meu caso.

ARTHUR: Você fala isso porque nunca experimentou um pinto, sua cabaço.

JULIA: Muito menos uma pixirica, graças a Deus.

ARTHUR: Já dizia Luiz Melodia: tente passar pelo que estou passando. Porra, pra tomar uma decisão eu penso mil vezes. Detesto cometer injustiça.Diego vira pra trás e fala com eles.

DIEGO: Oi. E aí, belezinha? Então... é que eu cheguei atrasado. Dá pra um de vocês me emprestar o comecinho da matéria?

ARTHUR: Não empresta, não, Julia! Não empresta.

[@olimpo]

por que será que o tempo passa e ventila pessoas tão queridas para tão longe?
TEXTO DE UM E-MAIL ENVIADO POR ANDRÉ WITER NO DIA 09/12/2002
Abrahhannn, Giba e Rafa (pois com o Fabronx já desisti de tentar!)
Galera, tenho boas novas para todos....Na verdade, não sei se são tão boas, uma vez que me farão chorar (snifff) e nem se são tão novas, pois a divino é mesmo um cidade pequena cheia de fofoqueiras... hehehe... mas a parada é a seguinte: pedi a Jesus que mandasse pelo Papai Noel (copiei isso de um molequinho que fez disso sua oração!) uma mudança para a minha vida profissional e acadêmica. Meses atrás, iniciei a minha pesquisa pelo programa de mestrado mais interessante para me inscrever. Olhei com carinho para cinco deles, dos cinco selecionei 3: um em Sampa, um aqui no Rio e um no Nordeste.
Bom, para a minha surpresa, passei em primeiro lugar em um deles, o outro fiquei impossibilitado de fazer e no terceiro fiz a prova decisiva hoje. O que fui aprovado em primeiro lugar foi o do Nordeste... isto é, se não for aprovado no do Rio, terei como destino certo ir para Paraíba. Para adiantar tudo a vocês, fiquei na Paraíba (em João Pessoa) por aproximadamente 13 dias, e me apaixonei por aquela terra. Não há violência, a Igreja é superatuante na sociedade, o povo é muito gente fina, a comida é ótima (engordei até 3 kg), e as praias... ulhs!!! São muito belas!!! Mando atachadas fotos de lá para vcs se apaixonarem também... ruim de lá, é ganhar dinheiro, pois se trabalha muito e se ganha uma merreca sem muita atuação sindical, mas o custo de vida é baixíssimo...Todos andam de "Hilux", com duzentos reais em um mês se faz uma festa nos mercados populares, o aluguéis giram em torno de 300 Reais na quadra da praia, as praias e os rios da cidade tem poluição zero...
Bem, e é como se vivesse numa imensa feira dos paraíbas, e como vcs sabem, a feira é meu local predileto!!!Dancei forró até ganhar um furúnculo na coxa, comi tanto "arrumadinho" que até hoje minhas fezes saem em ordem alfabética, e bebi tanto suco de frutas que minha urina ainda sai com gosto de tutti-frutti!É... acho que é isso. Para mim o natal começou cedo e quem sabe ainda não tem data para acabar.
E Para vocês? Rolou algo legal e novo na vida de vocês?
Rafa, como andam as coisas?
Giba, já encontrou um capacho novo?
Abrahaaannn, como anda sua prole?
Vou nessa meus amigos do quadrangular, que já foi pentagonal e hoje é triangular.
Beijo do Gordo!
Deco.
*humilíssima homenagem a deco witer, ex-preso político, ex-exilado no timor.
de uma das arestas do quadrado,
giba